Biliteracy é um dos tópicos mais discutidos na educação bilíngue atualmente. Isso porque as escolas estão tentando equilibrar demandas dos documentos brasileiros – que já trazem visões conflitantes sobre o processo de alfabetização – com abordagens utilizadas em países onde a língua adicional é falada, como os Estados Unidos, por exemplo. Essas abordagens nem sempre se baseiam nas mesmas teorias educacionais e podem rapidamente se tornar temas sensíveis entre professores e em cursos de desenvolvimento profissional.
Portanto, como coordenadora de uma escola bilíngue, garantir um processo de biliteracy eficaz e coerente no currículo pode ser uma tarefa complexa. Com opiniões diversas sobre alfabetização/letramento, recursos limitados e diferentes níveis de preparo entre os professores, criar uma estratégia coesa pode parecer impossível. No entanto, superar esses desafios é crucial para o sucesso das crianças no universo letrado.
Neste texto, vamos explorar estratégias práticas para promover uma abordagem unificada na educação bilíngue. Mas primeiro, vamos…
Lidar com Perspectivas Divergentes
Um dos principais desafios que coordenadoras enfrentam é lidar com as diferentes concepções sobre alfabetização/letramento em contextos bilíngues. Educadores experientes em alfabetização na língua portuguesa têm suas razões para acreditar em certas práticas, e muitas vezes essas abordagens já foram culturalmente testadas pelo país.
Educadores da língua-alvo, por outro lado, têm a possibilidade de conhecer práticas de todo o mundo, mas ambos carecem de conhecimentos e habilidades específicos sobre biliteracy e precisam de orientação para implementar práticas adequadas ao contexto bilíngue de cada escola.
Converse sobre isso! Tire o assunto da sala dos professores e das conversas individuais, abordando essas diferenças como um grupo. Organize reuniões regulares ou fóruns onde professores, especialistas e a equipe possam compartilhar suas opiniões, práticas e preocupações. Crie um espaço onde todos se sintam valorizados e respeitados, incentivando um diálogo real. E você vai notar rapidamente uma grande necessidade de…
Desenvolvimento Profissional
O desenvolvimento profissional é essencial para alinhar práticas, concepções e perspectivas, além de preparar as professoras com as ferramentas necessárias para um ensino bilíngue eficaz. Ofereça workshops, convide especialistas em biliteracy e forneça acesso a pesquisas baseadas em evidências para promover uma compreensão compartilhada das melhores práticas. Envolva-se ativamente nesse desenvolvimento profissional junto com eles. Lembre-se de que esse é um tópico que envolve crenças, e seu papel não é apenas entender o que os pesquisadores estão descobrindo sobre biletramento, mas também mediar a recepção das informações pela sua equipe. Isso te ajudará a decidir estratégias de acompanhamento específicas para certos professores ou para o grupo como um todo, além de facilitar a criação de um…
Framework for biliteracy
Um framework for biliteracy para toda a escola fornece diretrizes claras para as professoras, garantindo consistência e alinhamento no currículo. Esse framework deve definir os objetivos da escola para o biletramento, como a língua e os conceitos se entrelaçam, estabelecer parcerias entre professoras em momentos da rotina escolar, criar ferramentas e abordagens de avaliação, estabelecer práticas de ensino nas duas línguas e definir se a abordagem de biletramento será…
Sequencial ou Simultânea
Decidir entre biliteracy sequencial ou simultânea é uma decisão crucial para a escola e deve ser uma parte importante do framework. Aqui a palavra-chave é “intenção”, porque enquanto as práticas de letramento, como ler livros em voz alta, ocorrem naturalmente nas duas línguas, as crianças criam conceitos de letramento em seus cérebros usando TUDO o que sabem sobre todas as suas línguas, desenvolvendo conceitos gerais. Exemplos disso são entender que:
- Letras são símbolos que representam sons da fala;
- Letras têm nomes e sons e se combinam para formar palavras, frases e sentenças;
- O texto carrega significado e são estáveis.
Muitos destes aprendizados são transferíveis e não precisam ser ensinados duas vezes – isso seria desperdício de um tempo precioso. No entanto, características que são específicas de cada língua precisam ser ensinadas de forma sistemática, e isso envolve escolher como o tempo de instrução será gasto em cada língua. Essas características podem ser ensinadas simultaneamente ou uma após a outra (sequencialmente). Vamos detalhar cada uma:
Vantagens do Biletramento Sequencial:
Desenvolve uma base sólida de alfabetização/letramento na língua de maior fluência – o português -, e permite mais tempo para construção de habilidades orais na língua adicional, reduz a carga cognitiva e a sobreposição de conceitos para as crianças e facilita a transferência de habilidades entre línguas.
Vantagens do Biletramento Simultâneo:
Oferece exposição inicial a ambas as línguas quando ambas são faladas fluentemente, promove um equilíbrio no biliteracy e fomenta a equidade cultural e linguística (importante em contextos onde as duas línguas são usadas em contextos sociais).
Qual é o melhor?
Depende das necessidades das suas crianças e dos objetivos da escola. A escolha é sua! No entanto, aqui na Bilinguistas, recomendamos a abordagem simultânea para contextos como Canadá e EUA, em programas bilíngues conhecidos como two-way, quando as duas línguas são usadas na cultura local e há crianças proficientes em uma ou outra língua no mesmo grupo. Já a abordagem sequencial é indicada para contextos onde a língua adicional não está presente na comunidade como prática social e a construção da oralidade exige mais tempo e intencionalidade antes do início da sistematização da leitura/escrita nesta nova língua. Outro desafio bastante relevante é…
Enfrentar a Escassez de Recursos
Recursos limitados – materiais para as crianças, para o estudo das professoras, pares experientes – podem ser um grande obstáculo para escolas que estão investindo em sistematizar seu processo de biletramento. Para superar esse desafio, as escolas podem considerar essas ideias úteis:
– Recursos digitais: Nem todos os contextos conseguem encontrar ou comprar materiais físicos. É aí que a internet pode ajudar! Há muitos livros online, músicas, leituras em voz alta e outras ideias.
– Parcerias com organizações locais: Que tal bibliotecas locais? Elas podem ter uma pequena seção de livros na língua extra que a escola ensina. Você pode pegá-los emprestados? Talvez o(a) bibliotecário(a) possa indicar outras organizações ou centros culturais, até mesmo embaixadas, para recursos adicionais.
– Rede de compartilhamento de recursos: Sua escola tem uma escola parceira? Tente conectar-se com outras escolas bilíngues ou centros de línguas na região para trocar materiais.
– Desenvolvimento de materiais próprios: Estimule as professoras a criar seus próprios materiais e compartilhar com a equipe pedagógica. Isso gera um banco de opções que se alimenta e está totalmente alinhado com o contexto da sua escola. Mas, lembre-se, para pedir essa produção das professoras, disponibilize tempo e remuneração!
Finalmente, é essencial que as professoras estejam bem preparadas e seguras em sua habilidade de ensinar. Coordenadoras devem investir em programas de desenvolvimento profissional contínuos que capacitem a equipe pedagógica e acompanhar a materialização das formações em práticas pedagógicas.. Quanto mais conhecimento sua equipe tiver sobre esse tema fundamental na educação infantil e ensino fundamental anos iniciais, menos conflitos internos surgirão e mais eficácia coletiva vocês terão!
O curso Biliteracy in Action – oferecido pela Early Beginnings, nossa parceira americana – traz uma formação abrangente para professoras, acompanhando o processo de construir uma base de oralidade para então mergulhar no universo da leitura e escrita, com foco nas práticas de sala. Inscreva-se no nosso curso para formar sua equipe ou entre em contato conosco para que a gente leve esta formação até suas professoras!







