Em programas bilíngues de Educação Infantil ao redor do mundo, o inglês costuma ser uma das línguas de instrução. Mas o que exatamente estamos ensinando quando ensinamos inglês? E mais importante: o que estamos ensinando além da própria língua?
Em sociedades onde o inglês não é a língua dominante, o ensino dessa língua precisa ser conduzido com cautela, clareza e pensamento crítico. O inglês é uma ferramenta global, mas está longe de ser culturalmente neutro. Quando ensinamos inglês sem reflexão, corremos o risco de apresentar uma visão de mundo limitada junto com a língua. Ainda assim, em muitos programas de Educação Infantil – especialmente aqueles influenciados por currículos de países anglófonos – o ensino do inglês acaba, sem querer, vindo acompanhado da transmissão de normas culturais desses países.
É aí que precisamos parar e refletir.
Uma língua franca é uma língua usada para comunicação entre pessoas que não compartilham o mesmo idioma original. Hoje, o inglês é a língua franca mais amplamente utilizada no mundo. Países como Gana, Índia, Nigéria e Filipinas adotaram o inglês, em grande parte, por conta de histórias coloniais, e hoje ele está profundamente inserido na vida social, educacional e política como segunda língua. Em contraste, nações como Brasil, Japão, Suécia, Coreia do Sul, Alemanha e Indonésia não usam o inglês no cotidiano, mas grandes parcelas da população aprendem e usam o idioma como forma de conexão global.
Embora o inglês funcione como uma língua franca, ele não é neutro culturalmente. Sua disseminação global está ligada a histórias de colonização, sistemas econômicos e estruturas de poder. Linguistas como Robert Phillipson, Tove Skutnabb-Kangas e David Crystal abordam o papel global do inglês sob diferentes perspectivas. Phillipson critica a expansão do inglês como uma forma de imperialismo linguístico que reforça desigualdades globais. Skutnabb-Kangas chama atenção para como políticas linguísticas dominantes podem contribuir para a erosão de línguas e culturas minoritárias, especialmente na educação. Já Crystal foca na ascensão do inglês como língua franca global, destacando tanto seu poder de conexão quanto o peso cultural que inevitavelmente carrega.
Isso nos leva a uma pergunta crítica: o que acontece quando ensinamos inglês sem questionar a cultura que o acompanha?
Voltando ao cotidiano das salas de aula, é comum que o ensino de inglês esteja erroneamente atrelado à celebração de feriados como Thanksgiving (Dia de Ação de Graças), Halloween ou St. Patrick’s Day, como se aprender a língua fosse equivalente a “virar americano” ou “adotar uma cultura.” Mas aprender uma língua estrangeira não leva, e nem pode levar automaticamente, à assimilação cultural. Embora linguagem e cultura estejam interligadas, aprender uma língua não transforma ninguém em uma pessoa bicultural – e nem deveria sugerir adesão a uma identidade nacional específica.
Cultura não é um conjunto de comidas, bandeiras e feriados. É um sistema vivo de valores, relações e visões de mundo. Embora algumas expressões e usos da língua realmente reflitam o pensamento cultural – e sim, isso pode e deve ser explorado com contexto – ensinar uma língua estrangeira não exige adotar nem reproduzir a cultura dos falantes nativos. Pelo contrário, fazer isso de forma acrítica pode reforçar uma visão colonial que associa o inglês a normas ocidentais e à ideia de superioridade cultural.
Em muitos centros de Educação Infantil, especialmente aqueles que ensinam duas línguas, o inglês pode ser escolhido não por fazer parte do contexto linguístico local, mas por seu valor percebido como língua global. Isso, por si só, não é um problema. O problema é quando não examinamos o que mais está entrando em nossas salas de aula junto com o idioma.
Ou seja: quando usamos o inglês como uma língua adicional em nossos programas, não podemos permitir que ele substitua ou diminua a outra língua ou cultura na vida da criança.
Isso é fundamental na Educação Infantil, porque nossas decisões curriculares – mesmo as menores – transmitem mensagens poderosas sobre o que (e quem) é valorizado. Quando importamos músicas, livros, rituais de sala e feriados sem reflexão, podemos acabar centralizando normas culturais estrangeiras ao invés de construir um ambiente que valorize as identidades locais.
Para as crianças aprendendo em duas línguas, isso pode ser confuso: Será que eu preciso comemorar o Halloween para falar inglês bem? A forma “certa” de fazer escola é a de outro país? Essas são as perguntas – muitas vezes silenciosas – que levantamos quando importamos cultura junto com a língua, sem questionar.
Então, o que podemos fazer diferente?
Primeiro, reconhecemos que o inglês está presente, e vai continuar presente. Ele é a língua da aviação internacional, da diplomacia, da produção acadêmica e de grande parte da internet. Saber inglês abre portas. Conecta as crianças a uma conversa global e pode empoderá-las a compartilhar suas ideias, culturas e criações muito além de seu contexto local.
Mas, se queremos ensiná-lo com integridade, precisamos fazê-lo com consciência cultural. Precisamos reconhecer que:
- O inglês não é culturalmente neutro. Ele frequentemente carrega consigo os valores, suposições e o poder simbólico de países anglófonos dominantes.
- Aprender inglês não deve substituir nem diminuir a(s) língua(s) materna(s). O multilinguismo é um superpoder, não um problema. Estamos adicionando uma língua ao repertório das crianças – não substituindo.
- O inglês deve ser ensinado como ferramenta, não como transformação. Ele permite comunicação, mas não exige imitar uma cultura estrangeira.
Quando ensinamos inglês como uma língua franca, mudamos a narrativa. Ao invés de apresentar o idioma como um passaporte para “virar” alguém de outro país, o posicionamos como um espaço compartilhado de compreensão mútua e troca. Ensinamos as crianças a usar o inglês para contar suas histórias, descrever suas vidas e expressar suas ideias.
Parece que precisamos reposicionar a forma como o ensinamos, não é? Então vamos nessa! Na Educação Infantil bilíngue, isso significa:
- Usar o inglês como ferramenta para contar sobre a própria vida e experiência das crianças. Repertoriar as crianças para que possam interagir por meio da língua franca de forma ativa, sabendo como falar de si e de suas vivências, não apenas sendo um receptor neste diálogo.
- Celebrar sua cultura local – não a dos países que falam inglês. Deixe o inglês ser uma forma de descrever seus próprios feriados, suas comidas, sua família, sua realidade. Exemplo: comemore a Festa Junina em português, mas pode falar sobre e até preparar para a Festa Junina em inglês nas aulas de inglês também! Afinal, você quer que suas crianças sejam capazes de contar sobre a Festa Junina quando estiverem em diálogo com pessoas de outros países.
- Ser intencional com o conteúdo. O que você está levando para a sala? Músicas, histórias e rotinas devem refletir a diversidade da sala e do mundo, e valorizar de forma equilibrada os dois idiomas em uso.
- Filtrar crenças culturais hegemônicas embutidas em materiais em inglês (não importa de onde vem). Muitos livros, músicas e rotinas importadas carregam mensagens implícitas vindas de sociedades anglófonas dominantes – como individualismo exagerado, papéis de gênero rígidos ou o consumismo como norma. Escolha materiais que reflitam diferentes formas de viver e questione, com delicadeza, os que sugerem que há apenas um “normal.”
Assim, a Educação Infantil bilíngue pode se tornar um espaço onde o inglês amplia e valoriza – em vez de apagar – a cultura local. Como educadores, não estamos apenas ensinando um idioma. Estamos ajudando as crianças a se verem no mundo.
Se queremos formar cidadãos globais, não devemos começar fazendo-os comemorar o Halloween ou fingir que vivem em Nova York. Devemos começar ensinando-as a dizer, em inglês, quem são, de onde vêm e o que é importante para elas.
Vamos ensinar inglês não como um ingresso para outra cultura, mas como uma plataforma para honrar a sua.
Referências:
Crystal, D. (2020). Global English and social injustice: The need to listen. Nordic Journal of English Studies, 19(3), 165–174.
Hough, D. A., & Skutnabb-Kangas, T. (2005). Beyond good intentions: Combating linguistic genocide in education. Alternative, 1(1), 107–124.
Kim, D. (2020). Learning language, learning culture: Teaching language to the whole student. ECNU Review of Education, 3(3), 519–541.
Phillipson, R. (2017). Myths and realities of ‘global’ English. Language Policy, 16(3), 313–331.







