Na educação bilíngue, geralmente ouvimos falar de três grandes metas: bilinguismo, biletramento e biculturalismo (embora mais recentemente, especialmente pelos motivos que exploro neste artigo, essa última tenha sido substituída por competências interculturais). Mas será que o biculturalismo é sempre uma meta realista ou mesmo apropriada? Toda escola bilíngue deveria almejá-lo?
Como em muitas questões na educação, a resposta depende do contexto.
Se o seu programa bilíngue atende famílias imigrantes ou multilíngues – como uma família canadense morando no Vietnã – as crianças provavelmente estão imersas em dois contextos culturais vivos: um em casa, outro na sociedade em que vivem. Nesses casos, o biculturalismo não só é possível como inevitável. Essas crianças crescem falando duas línguas, navegando por dois sistemas de valores e sintetizando tudo isso na própria identidade – o que nem sempre é simples.
Por outro lado, em outros contextos – como uma criança saudita frequentando uma escola bilíngue nacional em árabe e inglês na Arábia Saudita – o bilinguismo e até o biletramento podem ser bastante fortes, mas o biculturalismo simplesmente não acontecerá. E tudo bem. Nesses casos, o inglês é ensinado como língua franca – uma ferramenta global de comunicação, e não como sistema de transmissão cultural. Não se trata de fazer parte de outra cultura, mas de usar o inglês para se comunicar, conectar e compartilhar quem se é.
Então a pergunta passa a ser: o biculturalismo deve ser uma meta em programas bilíngues no Brasil? Ou estamos criando uma expectativa falsa?
O linguista François Grosjean passou décadas estudando a relação entre bilinguismo e biculturalismo. Ele nos lembra que:
“Muitas pessoas são bilíngues sem serem biculturais […] habitantes de países com línguas francas ou línguas escolares diferentes, aprendizes de línguas estrangeiras que passam a usá-las regularmente, etc. Por outro lado, algumas pessoas são biculturais sem serem bilíngues. É o caso de falantes de uma língua que se mudam para outro país onde se fala essa mesma língua, ou de membros de uma cultura minoritária que já não dominam o idioma, mas preservam outros aspectos culturais.” (Tradução livre nosso, Grosjean, 2014, p. 573)
Ele descreve que pessoas biculturais compartilham pelo menos três características:
- Participam da vida de duas ou mais culturas.
- Adaptam seus valores, comportamentos e uso da linguagem de acordo com essas culturas.
- Misturam elementos de ambas em um repertório pessoal único.
“Certas características vêm de uma ou de outra cultura, enquanto outras são misturas… Torna-se difícil determinar a origem cultural de uma característica, pois ela contém aspectos das duas culturas.”(Tradução livre nosso, Grosjean, 2014, p. 575)
Esses insights nos ajudam a compreender que o biculturalismo não é uma consequência automática do aprendizado de uma nova língua. Ele surge quando as crianças participam ativamente de dois sistemas culturais – social, emocional e comportamentalmente, não apenas linguisticamente.
Na maioria dos programas de educação bilíngue, especialmente em contextos urbanos monoculturais, esse nível de integração cultural simplesmente não acontece. Ensinar inglês não significa inserir a criança numa “cultura de país de língua inglesa”, assim como ensinar árabe ou mandarim não torna uma criança culturalmente síria ou chinesa.
Em vez de forçar um biculturalismo sem sentido, escolas bilíngues devem priorizar a consciência cultural.
Consciência cultural é o desenvolvimento contínuo de:
- Abertura a diferentes formas de ser, falar e viver;
- Curiosidade sobre as experiências dos outros, sem julgamento;
- Empatia diante de valores e visões de mundo distintos;
- Autopercepção sobre a própria cultura, pressupostos e preconceitos.
Mesmo em programas que não produzem naturalmente crianças biculturais, é possível cultivar o respeito às diferenças, a reflexão sobre si mesmas e a noção de que fazem parte de um mundo diverso e interconectado.
E embora falemos muito em BI-linguismo, BI-culturalismo e educação BI-língue, porque em geral só temos espaço para uma língua adicional além da língua dominante da escola – somando duas no total, Grosjean também nos convida a transcender esse binarismo:
“Muitas pessoas usam mais de duas línguas no cotidiano, inseridas em mais de dois contextos culturais.” (Tradução livre nossa, Grosjean, 2014, p. 577)
Crianças podem crescer plurilingues e culturalmente fluidas, com influências que não cabem em duas caixas fechadas. Eu e meus filhos somos exemplos disso, tendo vivido por mais de cinco anos em quatro países diferentes e aprendido novos idiomas ao longo do caminho. E nossas escolas bilíngues – aliás, todas as escolas – precisam criar espaço para essa complexidade.
E o que isso significa na prática para a sala de aula e os contextos locais?
- Primeiro, defina suas metas com clareza. Se o seu programa visa a manutenção de uma língua e cultura de herança, o desenvolvimento bicultural será fundamental e deve ser ensinado com intencionalidade. MAS, se as famílias forem de culturas diferentes entre si, qual cultura está sendo ensinada e qual está sendo deixada de fora? Essa é uma discussão importante e por isso escolas e associações estão passando da meta de “biculturalismo” para uma lente de competência sociocultural. Agora, se o inglês está sendo ensinado como língua franca, o foco deve ser na consciência cultural, e não no biculturalismo.
- Segundo, abrace a diversidade dentro da própria sala. Mesmo em comunidades aparentemente homogêneas, nenhuma família vive do mesmo jeito. Incentive o respeito às diferenças! E para sugestões práticas na Educação Infantil bilíngue, clique aqui.
O biculturalismo pode ser uma experiência rica, bonita e poderosa nos contextos certos, mas não é pré-requisito para uma educação bilíngue significativa. Em muitos casos, especialmente quando o inglês é ensinado como língua franca, a identidade cultural da criança permanece – e deve permanecer – ancorada no seu próprio território.
Let’s let that be enough.
Vamos criar crianças com raízes firmes onde estão, curiosas sobre o mundo e confiantes para se expressarem em mais de uma língua.
Referência:
Grosjean, F. (2014). Bicultural bilinguals. International Journal of Bilingualism, 19(5), 572–586.







