Let them Play: um pedido à coordenação e à sociedade

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Quantas vezes uma coordenadora agiu baseando-se neste pensamento: Ah, eles estão só brincando, agora é um bom momento de entrar na sala e falar com a professora… Eu já me peguei nesse pensamento muitas vezes, pois temos tantas demandas que às vezes só precisamos de um sim ou não de uma professora para completar uma tarefa ou ligar de volta para uma família. Entretanto, a brincadeira ou o recreio não é o melhor momento, e, se decidimos pela interrupção, a nossa ideia sobre o brincar na Educação Infantil está desatualizada, pois aquele é o momento mais importante do dia. 

A transformação do brincar

Vocês já notaram que essa palavra ganhou uma conotação não acadêmica e sem seriedade? Que, quando sobrar tempo no dia, após feitas as lições, abordadas as matérias ou objetivos, aí poderia entrar um pouco de brincadeira livre? E no semanário que você recebe esse é um momento planejado ou é uma linha fina no planejamento que, se couber, acontecerá? 

E quando alguém importante entra na sala, até alguém da família, e as crianças estão “só brincando”, a cara da professora fica avermelhada de vergonha – pois a pegou com crianças “soltas” e “fazendo nada”? Você já se sentiu assim? Sim, até professoras da Educação Infantil questionam a importância do seu trabalho nesses momentos. Aí é quando nós, coordenadoras, precisamos entrar e mudar esse cenário – para todos os stakeholders

Por que o assunto do brincar voltou para a pauta quente?

Fácil, porque o brincar livre foi-se embora na infância e os efeitos foram sentidos na saúde mental de crianças e adolescentes, que está cada vez mais prejudicada.

Essa não é uma pauta só de professoras e psicólogos, mas é até um assunto que a Associação de Pediatria dos EUA tem fortemente indicado para seus membros quando diz “advocate for the protection of children’s unstructured playtime because of its numerous benefits, including the development of foundational motor skills that may have lifelong benefits for the prevention of obesity, hypertension, and type 2 diabetes.” e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que agrega 22 mil médicos pediatras, diz que “há estudos associando a falta de brincar com aumento da prevalência de estresse tóxico e de transtornos comportamentais, como o de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e a depressão.” O que torna esse assunto uma questão de saúde pública também! Yikes!

Esses pedidos chegam cada vez mais porque temos dados que comprovam que a quantidade de tempo que as crianças estão no livre brincar diminuiu. Um estudo famoso feito pela universidade de Michigan pesquisou como as famílias gastaram seu tempo em 1981 e depois em 1997, e nos anos 1980 crianças tiveram 40% do dia delas dedicados ao brincar livre, nos anos 1990 isso caiu para 25% do dia, consegue imaginar nos dias de hoje? 

Pois é, e uma pesquisa realizada pela Unilever, em abril de 2016, perguntou a 12.000 famílias em todo o mundo (inclusive Brasil) quanto tempo seus filhos passam ao ar livre. A resposta foi que, em média, não passaram mais que uma hora por dia. 

Mas o que mudou e tem mudado na nossa sociedade para a criança não ter tanto tempo para a brincadeira? 

Vários estudos apontam para algumas mudanças-chave. Uma delas é que a quantidade de tempo que a criança dedica aos estudos, tanto dentro da escola quanto em termos de lição de casa, aumentou, tanto em escolas públicas quanto particulares. 

Outro fator que mudou foi a pressão social de pais. Em muitos países, o sinônimo de ser um bom pai ou mãe é visto no desempenho do filho ou filha na escola. Essa pressão social também coloca o brincar livre em segundo plano. Como disse Peter Gray, na sua palestra de TED “The Decline of Play”: “Childhood is turned from a time of freedom to a time of resume-building.” 

Em outros países, alguns pais sentiram a necessidade de acompanhar seus filhos em todos os momentos, o famoso helicopter parent, para serem vistos como bons pais já que eles também têm a impressão de que permitir que as crianças brinquem livremente e sem acompanhamento, 24/7, é uma característica de pais displicentes. 

Mas não é só isso! Aliás, essas duas mudanças – tempo de estudo e pressão social – não foram as que estavam no topo da lista das razões mais citadas entre as pesquisas mundialmente. 

A pesquisa internacional de 2015 “A meta-study of qualitative research examining determinants of children’s independent active free play” de Lee (et al.) levantou muitos determinantes, mas o mais recorrente foram as preocupações de segurança percebidas pelos pais como a principal barreira para o brincar livre das crianças. Foram analisados estudos retrospectivos e históricos com membros de diferentes gerações e eles relataram que as preocupações com a segurança aumentaram ao longo do tempo e, nas gerações anteriores, as crianças tinham mais liberdade para brincar livremente, enquanto que, nos tempos presentes, essa atividade é restrita pelos pais. Isso não só nas cidades, mas também em áreas rurais. Você acha esses dados surpreendentes?

A meta-pesquisa atrela essa mudança a um senso de comunidade reduzido que fez com que os pais ficassem relutantes em permitir que seus filhos passassem tempo sozinhos ao ar livre ou em lugares ou situações em que tiveram preocupações com a segurança dos seus filhos. Como relatado no artigo, “Accordingly, reviving independent active free play require[s] the creation of an increased sense of community that involve[s] people knowing their neighbors, spending more time outdoors in their neighborhoods, and organizing community-oriented events.

E o que isso tem a ver com a escola e com você, querida coordenadora? Bom, a última frase que destaquei é uma dica para você! 

O que isso tudo quer dizer na prática?

Ouvimos de muitas professoras e coordenadoras nos nossos cursos que a escola prioriza mais o conteúdo dado do que o livre brincar, mais a apostila preenchida do que o livre brincar, mais a sala de aula controlada e comportada do que o livre brincar. E isso está diretamente ligado ao tipo de escola que vemos nas pesquisas, mais tempo para os estudos e mais lição de casa, lembra? 

Você, como coordenadora e líder dentro da sua escola, pode lidar com essa questão em muitas frentes, tanto com a sua equipe, quanto com a direção e as famílias. Vamos listar algumas, mas imagino que, olhando para seu contexto específico, você pode pensar em muitas outras propostas: 

  1. Tenha certeza de que o livre brincar entre como prioridade no schedule do dia, não como prêmio para ter completado as outras atividades do dia ou como um break para as professoras da sala. Este também deve ser um momento planejado, não deixe como uma linha fina na tabela de planejamento sem qualquer orientação – esse momento é de mediação e observação por muitas razões! Se faz tempo que você não pensa nesse assunto, faça um refresh com um curso rápido – online e assíncrono – clicando aqui. Garanta o propósito real e sério do livre brincar. E vai ter que bancar com…
  2. As famílias. Eduque as famílias corrigindo-as ao ouvir uma fala de “eles só brincam” ou “vou só tirar ½ hora mais cedo hoje… eles nem estão na hora de aprender” e outras falas recorrentes desse tipo. Faça uma reunião de pais (podemos ajudar você, clique aqui para saber mais) ou um grupo de estudo com os pais representantes de cada turma por um semestre para falar sobre sua importância, falar dos estudos feitos, os pedidos de especialistas de muitas áreas diferentes e a oportunidade que esse momento traz para a aquisição e experimentação do conhecimento de todas as áreas. E vai ter que bancar com…
  3. A direção e outras pessoas da equipe administrativa. Muitas vezes, não é só a coordenadora que tem o pensamento de Ah, eles estão só brincando, agora é um bom momento de… aí complete a frase dependendo do cargo da pessoa na escola. Essa fala é comum e recorrente e, como especialista de desenvolvimento infantil, David Elkind da Tufts University avisa: “O brincar tem que ser ressignificado e visto não como um oposto ao trabalho, mas sim como um complemento. Curiosidade, imaginação e criatividade são como músculos: se você não os usa, você os perde”.

    Qual foi a última vez que fez uma reunião pedagógica com a equipe administrativa com a benção da diretora, e com ela presente? Pois é, temos que não só educar os pais, mas também os funcionários da própria escola, de falar das interrupções que acontecem ao longo do dia e que muitas vezes são como aqueles comerciais chatos do YouTube, tirando a atenção das crianças e professoras do que estão fazendo – e isso nos inclui – tá? E isso, sim, também cai no nosso colo. Mas, de todas as pessoas na escola, quem você mais tem que bancar, são…
  4. As professoras. Aqui, é formação, planejamento e ação. Elas têm que saber da sua importância do brincar, como ele se dá, os tipos de brincar dependendo da etapa de desenvolvimento da criança, como mediar a aquisição da segunda língua enquanto brincam, como avaliar o brincar e como deve ser sua postura diante desse momento diário. Aqui é onde você entra, ou, se quiser, convide todo mundo para fazer o nosso curso do Brincar Bilíngue, e, a partir daí, você toca no dia a dia na escola. Porque criar uma formação extensa e profunda para um assunto megaimportante demanda muito tempo! Mas por isso a Bilinguistas existe, para ajudar você nessa parte, conte com a gente. Entre em contato! 

E mais uma reflexão para você, pensando na maior mudança que influenciou o brincar livre das crianças ao longo das últimas gerações – a preocupação com a segurança das crianças. Como é que a sua escola pode se tornar uma comunidade segura que possa preencher essa falta para as famílias hoje? Não espero que, de repente, a sociedade passe a confiar novamente nas pessoas mais próximas, volte a ter uma comunidade entre as vizinhas que possibilite maior movimento das crianças para fazer amigos e criar-se uma comunidade baseada em uma distância próxima. Acredito que isso virou algo do passado e precisamos pensar em como criar uma situação que possibilite o livre brincar da criança novamente, até para evitar as questões de saúde mental que estamos vendo hoje. Então, a reflexão final que deixo para você e sua escola é:

Como criar um senso de comunidade entre as famílias da escola que possa trazer maior segurança para que, no final, a criança tenha um lugar para explorar o brincar livre de forma regular e plena? Será que, convidando as famílias a entenderem mais sobre o brincar livre, pode gerar ideias possíveis entre elas com o apoio da escola? 

Agora, pense, sonhe e, principalmente, defenda esse valor, esse direito da criança que é o brincar. 

Referências:

  • GRAY, Peter. The Decline of Play. TEDxNavesink. 2014. Disponível em: link. Acesso em 22 de agosto de 2022.
  • LEE, H., Tamminen, K.A., Clark, A.M. et al. A meta-study of qualitative research examining determinants of children’s independent active free play. Int J Behav Nutr Phys Act 12, 5 (2015). Disponível em: link. Acesso em 22 de agosto de 2022.
  • MACHADO, Ana Lúcia. Semana Mundial do Brincar. Blog: Educando Tudo Muda. Maio, 2018. Disponível em: link. Acesso em 22 de agosto de 2022. 
  • MOYER, Melinda Wenner. Unstructured Play Is Critical to Child Development. Scientific American. 2016. Disponível em: link. Acesso em 22 de agosto de 2022.
  • ROBINSON, Sir Ken. The problem with our schools? There’s not enough playtime. Unilever. 2018. Disponível em: link. Acesso em 22 de agosto de 2022. 
  • SOCIEDADE Brasileira de Pediatria. Benefícios da Natureza no Desenvolvimento
  • de Crianças e Adolescentes.2019. Disponível em: link. Acesso em 22 de agosto de 2022. 
  • SOUZA, Alice de, et al. Brincar livre: o direito da criança a se desenvolver com saúde. Diário de Pernambuco. Publicado em: 13/01/2019. Disponível em: link. Acesso em 22 de agosto de 2022.
  • SUNG, Ki. Childhood As ‘Resume Building’: Why Play Needs A Comeback. KQED. 2019. Disponível em: link. Acesso em 22 de agosto de 2022.

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