Free play é free só para as crianças!

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Um cafezinho, uma conferida no Instagram ou um bate-papo com nossa teacher-bestie. Normalmente, a hora do free play é também um momento de descompressão e relaxamento para nós, professoras. Aproveitamos para nos desligar um pouco enquanto as crianças correm pelo pátio ou playground, e, geralmente, estamos prontas para intervir se ouvimos uma discussão, uma briga, um choro ou quando as crianças vêm até nós para pedir alguma ajuda.  

No entanto, por mais duro que seja ler isso, o momento de free play é free só para as crianças. Esse é um dos momentos mais importantes para a professora estar presente, no sentido de aware, ou seja presente inteira, por completo! 

E, para fazer essa afirmação, seguem alguns motivos relacionados com salvaguarda primeiro, e depois a gente se aprofunda na questão pedagógica e bilíngue.

Criança é um ser que se machuca! Você sabe quantas vezes já colocou gelo e band-aid nos meninos e meninas. Não é uma situação constrangedora quando você vai entregar à família um filho que está com um galo enorme na testa e você não sabe dizer o que aconteceu? Aí você começa a tentar juntar as pistas na cabeça para entender como foi que a criança caiu, como o balanço bateu na testa, ela conta uma coisa diferente cada vez que alguém pergunta, os amigos da sala têm diferentes versões… pior ainda se a criança ainda chega em casa e fala que foi o colega que empurrou, no outro dia a família ainda quer “tirar a história a limpo”! Espero que você nunca tenha passado por isso, mas, se você não está superatenta nos momentos de brincadeira livre, é só uma questão de tempo…

Além disso, aos quatro ou cinco anos, muitas crianças começam a demonstrar uma curiosidade sobre o corpo do outro. Quem nunca passou por uma escola em que uma criança pediu para ver a calcinha, a cueca ou as partes íntimas do corpo de um colega? Aí o grupo de WhatsApp das famílias se agita, a coordenadora tenta se explicar e não tem uma professora que saiba dizer exatamente o que aconteceu, justamente porque estavam colocando as novidades em dia na hora do parque.

Se você nunca ouviu falar dessas situações, então aqui vai uma que ninguém escapa: as panelinhas. Aí, quando a família chega na escola, ela vai informar a você diversas ocorrências que você deixou passar porque sua atenção estava em outro lugar.

Trazendo a conversa para o plano pedagógico

Já temos informação disponível de diferentes áreas de investigação – neurociência, psicologia comportamental, pedagogia e linguística, por exemplo – para entender que o brincar é parte fundamental do aprendizado. Então, por que não estamos colocando a devida importância no nosso papel durante essa parte do nosso cotidiano?

Como já foi dito, o momento de brincadeira livre requer presença da professora, e agora vamos refletir sobre os diferentes enfoques que podemos dar para nossa atuação.

Começamos pela observação das parcerias. É fundamental perceber as alianças que se formam durante a brincadeira e as relações de poder que se manifestam. Um olhar treinado pode aproveitar essas dinâmicas para os momentos de sala, tanto reforçando lideranças passageiras quanto diluindo algumas relações. Quem são as crianças que propõem brincadeiras, que papel desempenham nos jogos simbólicos? Quem são as crianças que ficam à margem, quem participa mesmo a contragosto para não desagradar? Como são as negociações, como surgem os conflitos, quais situações precisam ser mediadas, o que pode ser antecipado e evitado com a sua mediação? Olha só que bela pauta de observação pode ser construída a partir dessas perguntas! 

Um segundo aspecto a ser observado é o tipo de brincadeira que cada grupo está criando. Se sua turma tem até três anos, você deve estar atenta aos esquemas (schemes) que eles estão apresentando, pois isso é uma pista importante sobre quais atividades você deve propor. Se eles são mais velhos, quais são os jogos ou narrativas que estão emergindo? Eles devem alimentar seu planejamento, pois a língua vai aparecer de forma natural e envolvente sempre que aproveitarmos as pistas que eles nos oferecem. Para dar um exemplo prático: estão brincando de mamãe e filhinho? Hora de disponibilizar bonecas, banheira, escova de dentes e de cabelo, props da rotina de cuidado e investir na apresentação da língua que permeia esse universo. Vá para a roda com a sua boneca, modele para as crianças as ações e a linguagem. Estão brincando de herói? Ofereça livros sobre o tema, produza com as crianças capas e braceletes decorados, trabalhe com a temática de superpowers. Bolo na caixa de areia? Confeitaria e confecção de livro de receita na sala. 

O brincar aponta para a língua que as crianças precisam que você lhes apresente. Quando fazemos o contrário, elas continuam brincando em português

O terceiro aspecto da sua postura é o envolvimento na brincadeira. Existem diferentes papéis que a professora pode desempenhar durante o brincar. Uma fala frequente entre professoras é que as crianças não sabem brincar, que, se são deixadas para brincar livremente por um longo tempo, os conflitos escalam. Essa fala frequentemente pode ser observada, principalmente porque brincar coletivamente também é um comportamento aprendido, especialmente se você quiser incorporar o uso de uma língua adicional a esse contexto. 

Nesse caso, é importante conhecer o conceito de guided play, ou brincar guiado. Existe um contínuo que se refere à interferência que o adulto tem no brincar. Muitas pesquisas indicam que as potencialidades cognitivas, sociais, emocionais e linguísticas da brincadeira se maximizam com a mediação do adulto. Isso não quer dizer que você deva brincar junto e muito menos liderar a narrativa das brincadeiras, mas entender que você pode usar uma estratégia de scaffolding. O contínuo da presença do adulto tem, de um lado, uma interação um a um entre a professora e a criança, com a professora escolhendo o brinquedo, a brincadeira e propondo que a criança se engaje nos moldes escolhidos. Por exemplo, você pega um cachorro de pelúcia e aborda uma criança dizendo “the dog is sad, can you give him a hug? I have an idea! Why don’t you get the kitten so they can play together?”. No outro extremo, temos o famoso anúncio “it’s playground time!” e as crianças saem correndo para o parque e salve-se quem puder!

Mas, entre um extremo e outro, temos muitas opções. Podemos, por exemplo, escolher com intencionalidade os materiais que disponibilizamos. Quando você leva um kit de panelinhas para a caixa de areia, você está guiando indiretamente a brincadeira que pode acontecer ali, caso as crianças se envolvam com o material. Se você levar funis, peneiras e baldes com água, certamente você verá uma brincadeira diferente emergindo. Outra forma de alimentar as brincadeiras são as histórias. Quem nunca viu as crianças brincando de lobo mau ou de mágico depois de uma história? O quanto as brincadeiras de vampiro, fantasma e lobisomem aparecem próximo do Halloween?

Pensando ainda no contínuo, existem quatro posturas que você pode adotar, e aqui seria interessante pensar também nas possibilidades de aprendizado de língua que elas trazem. A escolha de seu papel vai variar com a sua intencionalidade e com o desenvolvimento da criança ou do grupo. 

O papel mais intervencionista, ou mais guided-play, é a de play leader. Essa é a situação parecida com a do exemplo do cachorro. É também a sua oportunidade de apresentar uma brincadeira e, com ela, o repertório verbal que ela requer. Você vai guiar ativamente a brincadeira, com o objetivo de enriquecê-la e ampliá-la, oferecendo temas, props, materiais ou conduzindo a narrativa. Essa é a melhor escolha quando você quer trabalhar um novo conjunto linguístico ou quando seu grupo tiver dificuldade de iniciar ou sustentar uma brincadeira. 

O segundo papel é o de co-player. Aqui, você pode desempenhar um papel de coadjuvante na brincadeira, acatando as propostas das crianças e enriquecendo a narrativa. Você também pode ter esse papel para modelar o uso da língua ou para modelar habilidades socioemocionais, como dividir, esperar a vez ou negociar.

O terceiro tipo é stage manager, ou assistente. Aqui você não estará diretamente envolvida na brincadeira, mas poderá, por exemplo, ajudá-los com fantasias e outros props ou ajudá-los quando eles solicitarem. Você também pode fazer sugestões pontuais, mas as crianças conduzem e podem ou não aceitar. 

O quarto e último papel é o de onlooker, ou observadora. Nesse papel, você vai observar se precisa interferir, ou intervindo apenas em uma situação que você identifique necessária. Mesmo quando você adora essa postura, ainda precisa estar atenta, observando e registrando aquilo que você vai trazer para a roda ou para seu planejamento. 

Agora que você já conhece os papéis da professora durante a brincadeira livre, você já está pronta para olhar seu planejamento e pensar sobre a melhor postura para suas propostas de brincar. Incorporar os diferentes papéis e ter em mente o contínuo que vai de guided play até free play completo vai trazer a língua para o momento de brincar de forma natural e vai contribuir substancialmente para o aprendizado das crianças. Se você quiser se aprofundar no tema do brincar bilíngue, conheça o minicurso que preparamos especialmente para você!


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