Uma característica central na escola da infância é o vínculo afetivo construído entre crianças e professoras. Uma das formas de construir e manter esse vínculo é demonstrar para a criança o prazer que temos em estar em sua companhia e participar de seu processo de aprendizagem. O elogio é uma das maneiras de fazer isso.
Um outro contexto de uso do elogio é na construção da autoimagem da criança. Ao lidar com os pequenos, precisamos estar conscientes de que nossas palavras têm peso e impactarão na forma como as crianças se enxergam, talvez por muitos anos.
Pensando nesses dois contextos, o elogio se torna uma fala maravilhosa: vamos sempre dizer para a criança que chegou pela primeira vez de óculos ou com um novo corte de cabelo que ela está linda. Vamos também elogiar processos (wow, you are so focused on the task!), produtos (what a nice drawing), e comportamentos (you are such a good friend!) e não há nada de errado ou ruim em fazer isso!
Então, onde está o problema?

A questão é que muitas vezes nos tornamos disparadoras de good jobs, nices e well dones. Apesar de que receber uma fala positiva da professora possa deixar a criança momentaneamente contente e orgulhosa de si mesma, um good job não traz para a criança nenhuma informação sobre o que ela está fazendo de forma correta ou como ela pode manter/melhorar aquela ação.
As crianças acabam dependentes do elogio como forma de validação externa, sem entender quais ações realmente levam ao elogio. Distribuir good jobs também esvazia o trabalho em si; quantas vezes você disse good job para uma criança e a outra disse “e eu?” e isso desencadeou uma corrente de good job, desmerecendo a criança inicial e validando ações que talvez não deveriam ser validadas naquele momento? Mas, fazer o que nesta situação, não daria para dizer good job para ela, mas para você não… seria uma bela enrascada, né?
Por isso é tão importante entender a diferença entre uma elogio e um feedback no contexto de aprendizagem
Como já dito, o elogio tem sim seu lugar: vínculo e construção da autoimagem. No entanto, é o feedback que vai agregar na construção de conhecimento das crianças. Portanto, no contexto que estamos trazendo aqui, o feedback é uma fala da professora que traz uma informação precisa e valiosa para que a criança possa caminhar em seu processo de aprendizagem.
O feedback está sempre conectado à sua intenção didática, ele está sempre apontando para um objetivo de ensino. Assim, quando você troca o good job por um feedback genuíno, você está trazendo para a criança autonomia e entendimento sobre seu processo de aprendizagem.
Vamos pensar em um exemplo na prática?
Você pede que as crianças organizem a sala após uma brincadeira que envolveu espalhar bolinhas de tênis pelo espaço. Ao seu comando “Time to clean up, let´s put all the balls back in the basket”, três crianças imediatamente começam a correr em direção às bolinhas para pegá-las. Ao invés de dizer: “Goob job, Maria, Lalá e Tito!”, o que poderia ser dito com a intenção de informar as crianças que estão cooperando que elas estão agindo da forma apropriada e, de quebra, impulsionar a mesma ação nas outras crianças?
Do ponto de vista das crianças que não estavam ainda ajudando a pegar as bolinhas, seu good job pode ter sido para correr (que é a ação que elas observaram), o que ainda pode contribuir para a desorganização. Por isso, é tão importante que sua fala seja informativa e precisa, para que todas as crianças possam se beneficiar dela.
Você poderia então dizer: “Thank you for start cleaning up, Maria, Lalá e Tito!” Isso indicaria para as três crianças que estão no caminho correto e também indicaria para as outras crianças a ação esperada. Da mesma forma, você poderia dizer “Maria, Lalá e Tito are already picking up some of the balls! Everybody, let’s do the same!” ou, se você quer manter o good job, você pode complementar “Good job for grabbing the toys, Maria, Lalá e Tito, now let’s put them in the basket!”
Você percebe como as três falas exemplificadas são positivas, alegres, mostram para as crianças que elas estão fazendo algo que deve ser feito e vai deixá-las orgulhosas, felizes em ajudar e vai trazer uma sensação de pertencimento, tanto quanto um elogio.
Mas também mostram para as crianças exatamente o que elas estão fazendo e como podem continuar a fazer, o que traz consciência sobre as próprias ações e valida estratégias que estão sendo utilizadas. Além disso, indica para as outras crianças o que deve ser feito, dando a elas a mesma oportunidade de executar a ação.
Agora que você já conhece a diferença entre o elogio e o feedback, que tal implementar aos poucos esse componente de ensino no seu dia a dia? Para se aprofundar neste tema, você também pode se inscrever no curso Práticas Pedagógicas Bilíngues, que além de práticas de feedback também explora práticas de listening, understanding, reading, pre print e muito mais!







