Segredos de uma Professora Veterana de Turmas Bilíngues de Toddlers

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Autora convidada: Audrey Piccioli

Durante muitos anos, minha sala de aula foi o espaço de pequenos seres humanos entre um e dois anos de idade. Bebês, na verdade, ainda descobrindo suas primeiras palavras, seus primeiros passos, seus primeiros tudo. E lá estava eu, falando em inglês. Não como segunda língua, não alternando entre idiomas, nem traduzindo, mas falando totalmente em inglês. É assim que a educação bilíngue costuma funcionar nessa faixa etária: imersão total. E a verdade, às vezes caótica, às vezes bagunçada, mas linda? Funciona.

Mas isso só funciona por algo muito mais profundo do que flashcards ou listas de vocabulário. Funciona por causa de três elementos-chave: consistência, repetição e previsibilidade. Não são palavras da moda. São a santíssima trindade de quem ensina toddlers. Especialmente quando estamos guiando essas crianças no processo delicado de adquirir um segundo idioma antes mesmo de dominarem o primeiro.

Não são as palavras… é a música!

Um dos maiores segredos que aprendi, e digo “segredo” com leveza, porque depois que você descobre, parece tão óbvio, é que os toddlers não aprendem apenas com o que você diz. Eles aprendem com como você diz. O tom, o ritmo, a musicalidade. Isso se chama prosódia: a melodia da fala que comunica significado mesmo quando as palavras ainda não são compreendidas. Um tom que sobe pode sinalizar uma pergunta. Uma frase suave e lenta pode acalmar uma sala. Uma voz cantada vira um sinal para juntar, sentar, escutar, mudar de atividade. Antes de falarem, eles escutam. E antes de entenderem, eles sentem. Nem sempre soube disso. Aprendi com o tempo, com a prática. E ficou muito claro para mim em um momento que nunca vou esquecer.

A criança russa que me ensinou tanto

Na época em que trabalhava no Brasil, tive uma aluna em minha turma de toddlers que falava apenas russo. E ela foi inserida em uma sala que falava inglês, dentro de um país que falava português. Ela não tinha acesso à sua língua materna na escola, e eu não falava russo. O Google Tradutor não ia me salvar ali. Eu não podia usar nenhuma estratégia de “voltar pra L1”, porque eu simplesmente não tinha a L1 dela. Só tinha a mim mesma.

E foi aí que tudo fez sentido.

Eu não precisava da língua dela. Eu precisava da confiança dela. Usei meu tom de voz, minha linguagem corporal, minhas rotinas. Repetia as mesmas frases com os mesmos gestos, dia após dia. Cantava as transições, usava pistas visuais, fazia contato visual, abaixava a voz quando ela precisava de acolhimento. Ela não precisava entender o vocabulário, ela precisava entender a mim. E entendeu. Não de imediato, mas aos poucos. Com segurança.

Essa experiência transformou minha forma de ensinar. Fortaleceu minha convicção de que as crianças não precisam entender suas palavras para sentir sua mensagem. Elas precisam de ritmo, de afeto, de constância.

O primeiro mês é tudo

Se eu pudesse dar apenas uma dica prática para qualquer professora, especialmente para quem trabalha com toddlers em contextos bilíngues ou internacionais, seria esta: use o primeiro mês para construir o vínculo, não o currículo. Todo o resto pode esperar.

Nas primeiras semanas, faça as mesmas coisas nos mesmos horários. Cante as mesmas músicas, brinque os mesmos jogos, siga as mesmas rotinas. Deixe que te conheçam, e conheça cada criança. A confiança não vem de atividades ou fichas, ela vem de você ser o ritmo constante do dia delas.

Sim, você vai se sentir uma vitrola quebrada. Vai cantar a música de guardar os brinquedos umas cem vezes. Vai narrar trocas de fralda e lanche como se estivesse dando uma palestra TED para bebês. Mas esse é o trabalho. Esse é o presente.

Esse tempo não é desperdiçado, é fundamental. Depois que a criança se sente segura, sabe o que esperar, sente que tem um laço com você, então sim: o aprendizado começa.

O olhar da professora bilíngue

Ser professora bilíngue acrescenta uma camada a mais de responsabilidade e de beleza nesse trabalho. Você não está só ensinando conteúdo. Você está oferecendo input. Cada coisa que você diz faz parte da exposição da criança à segunda (ou terceira) língua. E não é só sobre o que você diz, mas como você diz. Linguagem significativa, contextualizada, que aparece nas rotinas, nas frases repetidas, nas interações com afeto, isso fica muito mais do que qualquer flashcard.

E aqui vai algo que muitas professoras iniciantes esquecem: toddlers em contextos bilíngues não estão apenas absorvendo duas línguas em paralelo. O cérebro deles está fazendo um trabalho complexo e brilhante. Estão aprendendo a mapear significados em dois códigos, muitas vezes sem dominar completamente nenhum dos dois. Por isso, precisamos ter paciência. Precisamos respeitar o ritmo da aquisição. E lembrar: o silêncio não é sinal de falha, é parte do processo. Primeiro vem o input, depois vem a fala.

Quando as palavras não vêm

Um dos maiores equívocos que vejo por aí é a ideia de que a criança precisa entender uma língua para se sentir acolhida por ela. Isso não é verdade. A linguagem é emocional antes de ser cognitiva. A criança sente sua intenção. Lê seu rosto. Ouve seu tom. Capta sua energia. Você não precisa falar o idioma dela para demonstrar amor.

Sim, a língua materna é importante. Sim, é a língua do lar, do afeto, da identidade. Mas nunca acreditei que fosse a única capaz de criar vínculo. E minha experiência mostrou que o mais importante não é a língua em si, mas como a usamos.

Então, mesmo hoje, em contextos internacionais onde tenho crianças cujas línguas maternas talvez eu nunca conheça, eu não me preocupo. Eu sei o que fazer. Chego cantando. Trago meu tom constante. Construo rotinas. Ofereço segurança pela repetição. Deixo que a prosódia leve minha mensagem… até que as palavras cheguem.

Considerações finais

Muita gente me pergunta: “Qual é a sua filosofia de ensino?” E eu sorrio, porque não acho que seja nada tão sofisticado. Mas se eu tivesse que colocar em palavras, seria algo assim:

Seja a constância. Use a música da sua voz. Repita tudo, todos os dias. Deixe a criança saber o que vem a seguir, e quem estará lá para guiá-la. Construa o vínculo antes do vocabulário. Construa conexão antes do conteúdo. E saiba que, quando isso acontece, o resto vem… devagar, lindamente, e em duas línguas ao mesmo tempo.

Então, para toda professora de toddlers bilíngue por aí, especialmente as iniciantes: respira fundo. Você não precisa ser barulhenta. Não precisa ser perfeita. Só precisa ser constante, atenta e gentil. O resto: a linguagem, a aprendizagem, e a risada…vai florescer a partir disso.


Audrey Piccioli tem um forte background em educação bilíngue internacional, com mais de 15 anos atuando em escolas bilíngues no Brasil, e desde 2020, como professora e coordenadora em escolas internacionais em Dubai e Milão. É formada em Letras e Pedagogia e está cursando mestrado em Educational Leadership em Harvard. Ela Acredita que educação é conexão, respeito e acolhimento, e se dedica a inspirar educadores e famílias a cultivarem aprendizagens significativas e transformadoras.

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