Autora convidada: Lídia Basques
Ao chegar ao fim de mais um ano letivo, debruçada sobre a escrita de relatórios e a organização das evidências de aprendizagem de cada criança, comecei a refletir sobre minhas práticas e o impacto delas no processo de aquisição da língua inglesa pelos meus alunos. Atuo como professora bilíngue de crianças pequenas, em escolas brasileiras e internacionais, desde o início da minha vida profissional — há mais de uma década — e posso dizer, com confiança, que meus alunos são capazes não só de compreender o idioma, mas também de usá-lo de forma autônoma. Entretanto, em meio a esse processo reflexivo, comecei a me questionar sobre o quanto tenho, de fato, consciência das estratégias que os guiam e os preparam para falar inglês. Essa reflexão me mobilizou.
Lembrei-me de algumas reuniões que tive com as famílias ao longo deste ano e percebi que, enquanto falava sobre o desenvolvimento das crianças, ficava evidente, também para mim mesma, que não era por acaso que elas tivessem progredido e fossem capazes de usar a língua com naturalidade. À medida que dava exemplos de momentos da rotina ou de interações para evidenciar esse aprendizado, percebia que as inúmeras escolhas que fiz diariamente — antes, durante e depois do meu turno de trabalho — tinham como norte aquilo que considero essencial para a prática pedagógica: a intencionalidade.
Antes de separar materiais, organizar o espaço, pensar em propostas, escrever planejamentos e estabelecer procedimentos, me apropriei, mais uma vez, das intenções que fundamentam cada uma das minhas escolhas — intenções essas que venho construindo e consolidando ao longo da minha trajetória como professora. Essa intencionalidade está ancorada, fundamentalmente, na minha concepção de que uma criança muito pequena já é um ser capaz de aprender: sujeito do seu próprio processo de desenvolvimento, pleno em sua potencialidade. Como tão bem disse Loris Malaguzzi: “Quando falamos da criança, não estamos falando de uma criança pobre, que precisa de tudo, mas de uma criança rica em potencial, forte, poderosa, competente e, acima de tudo, conectada com adultos e outras crianças” (Malaguzzi, 1993).
Quando penso na oralidade de crianças tão pequenas, lembro que cada escolha — do tom de voz à organização do espaço — importa. É na interação cotidiana, nos momentos de cuidado, nas canções, nas histórias, nos jogos de faz de conta e até nas transições entre atividades que surgem as oportunidades mais ricas para a criança ouvir, experimentar e produzir a nova língua de forma significativa. A intencionalidade se revela quando crio espaços seguros para que arrisquem palavras, quando modelo a linguagem de forma contextualizada e quando valorizo cada tentativa como parte de um processo natural, respeitando o ritmo de cada uma. Assim, o inglês deixa de ser apenas conteúdo: torna-se vínculo, afeto e comunicação genuína.
Outro aspecto que percebi muito presente e essencial para promover a oralidade foi a consistência. A importância da regularidade se tornou muito clara para mim desde as primeiras experiências com a adaptação de bebês e crianças pequenas ao ambiente escolar. Em meio à ansiedade pela separação da família e à entrada em um novo ambiente, com adultos ainda desconhecidos, a manutenção da rotina, da forma como passamos por ela e a previsibilidade nas transições proporcionam segurança e confiança para que a criança crie vínculos e se engaje com esse novo contexto. No que se refere à aquisição de uma nova língua — às vezes concomitante com a aquisição da língua materna — não é diferente.
A consistência atua como um fio condutor que organiza a experiência linguística: repetição de comandos, músicas, saudações e estruturas frasais tornam o inglês previsível e, portanto, mais acessível. É justamente por meio dessa previsibilidade que a criança encontra espaço para se arriscar a usar novas palavras, repetir expressões e se comunicar, primeiro de forma fragmentada, depois de forma cada vez mais complexa. Pequenos procedimentos de rotina, quando feitos de forma intencional e regular, são como pistas que dizem à criança: “Você está segura aqui. Você sabe o que vem a seguir. Pode tentar, pode repetir, pode falar comigo.” É nesse ambiente organizado, previsível e afetuoso que a linguagem floresce. Assim, mesmo em situações de conflito, transições ou mudanças de atividade, a criança sabe o que esperar, entende o que se diz e tem a oportunidade de participar — ainda que com poucas palavras, com muita intenção.
Um momento-chave na rotina, que apareceu várias vezes como exemplo nas reuniões com as famílias, e assim deixou muito clara a importância da consistência, foi a roda inicial — o circle time — em que organizamos a rotina do dia, checamos o calendário, o clima e fazemos a chamada. Era como se eu seguisse um script em que as palavras, frases e expressões eram constantes, apoiadas em dicas visuais, imagens e gestos, com pouquíssimas alterações. Nesse contexto previsível e seguro, reforçado dia após dia, as crianças podiam se sentir à vontade para experimentar, errar e tentar de novo — um movimento essencial para a aquisição de qualquer língua. À medida que demonstravam maior compreensão e passavam a incorporar vocabulário e repetir frases, eu trazia outros elementos e tornava a linguagem mais sofisticada.
Relembrar situações em que as crianças usaram estruturas linguísticas apresentadas de forma intencional e consistente em momentos distintos da rotina, para falar sobre suas próprias experiências, me trouxe a clareza de que, sob esses dois pilares, está pavimentado o caminho para que elas avancem em direção a uma produção oral cada vez mais autônoma e espontânea. Finalmente, para além desses dois pilares, o próprio ato de revisitar esses momentos, pensar sobre as minhas escolhas e o modo como as coloquei em prática, e assim retomar as estratégias que fundamentam minha prática, também se constitui como parte imprescindível para que eu continue atenta e siga buscando conhecimento para enriquecer meu fazer pedagógico.
Quando compreendemos que cada escolha, por menor que pareça, contribui para criar um ambiente seguro, intencional e consistente, entendemos também o poder que temos, como professores, de nutrir a confiança de cada criança em sua própria voz. A rotina, os gestos repetidos, as palavras que voltam dia após dia — tudo isso se torna linguagem viva: um convite para que cada criança descubra, experimente e conquiste, no seu tempo, o prazer de se comunicar em uma nova língua.
Mais do que ensinar inglês, oferecemos vínculos, oportunidades e contextos ricos, onde o aprendizado é parte de um cotidiano que respeita e celebra a potência de cada um. Que possamos, como educadores, seguir refletindo e aprimorando nossas práticas, para garantir que toda criança muito pequena seja reconhecida, desde o início, como alguém que é, sim, capaz: forte, potente, curiosa e cheia de linguagens por descobrir.
MALAGUZZI, Loris. No way. The hundred is there. In: EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George (Org.). The Hundred Languages of Children: The Reggio Emilia Approach — Advanced Reflections. 2nd ed. Norwood, NJ: Ablex Publishing, 1993.

Lídia Basques é professora pesquisadora bilíngue, especialista em desenvolvimento de currículo, gestão de sala de aula e documentação pedagógica. Há mais de dez anos atua em sala de aula e cria espaços onde bebês e crianças pequenas exploram o inglês com curiosidade e afeto. Usa narrativas autorais e a fotografia para eternizar descobertas e dar voz à potência de cada infância.





