Nas escolas onde trabalhei como coordenadora, sempre fiz questão de usar o inglês com os outros adultos o máximo possível. Não porque sou gringa e não falava português, nem por falta de fluência para me expressar. Pelo contrário, era uma escolha pedagógica e intencional, pois parte do meu trabalho era desenvolver a fala das professoras com quem trabalhava.
Desde o início, deixava isso bem claro ao entrar em uma escola. Todos sabiam que eu falava português – e bem. Mas meu uso do inglês era uma decisão consciente, voltada para a formação continuada na língua, para a modelagem constante do uso social do idioma-alvo e para reforçar o aprendizado além da sala de aula. Nem todas as professoras gostavam, mas todas entendiam a importância desse processo, pois exigia esforço contínuo, aprendizagem ativa e o cérebro funcionando na segunda língua até mesmo fora do contexto de ensino.
Também estendi esse convite para as interações entre as próprias professoras. Quem quisesse adotar essa prática com colegas estava mais do que bem-vinda. Algumas aceitaram, outras não – e tudo bem.
Inglês fora da sala
Em escolas bilíngues onde o inglês não é amplamente falado fora do ambiente escolar, um grande desafio se impõe: como garantir que a língua-alvo continue sendo desenvolvida por toda a equipe pedagógica? Muitas vezes, o único espaço onde as professoras utilizam o inglês é dentro da sala de aula, com as crianças. Mas será que isso é suficiente para garantir um ensino de qualidade e um uso rico da língua?
A resposta é não. Se a única prática linguística da professora acontece dentro da sala de aula e com crianças pequenas que estão aprendendo a falar, há um risco enorme de empobrecimento do vocabulário e da repetição de padrões limitados de linguagem. O inglês usado com crianças pequenas geralmente é simples, estruturado e focado em comandos diretos e interações básicas. Se não há um esforço consciente para expandir esse repertório, a própria fluência da professora pode se estagnar, impactando diretamente a qualidade do ensino bilíngue.
Neste sentido, a coordenadora tem um papel essencial nesse processo. Usar o inglês nos momentos de interação profissional com as professoras não é apenas uma forma de reforçar o compromisso da escola com a bilinguismo, mas também uma ferramenta prática para manter a língua ativa e em expansão.
Aqui estão alguns motivos pelos quais coordenadoras devem priorizar o uso do inglês com a equipe:
- Expandir o vocabulário das professoras. O vocabulário utilizado no dia a dia da sala de aula tende a ser repetitivo e limitado ao que as crianças compreendem. Quando a coordenadora interage em inglês com as professoras, ela introduz novas expressões, termos acadêmicos e estruturas mais complexas que ajudam a enriquecer a fala e a escrita da equipe.
- Desenvolver a confiança no uso da língua. Muitas professoras bilíngues, especialmente aquelas que não tiveram imersão em países de língua inglesa, podem se sentir inseguras ao falar inglês fora do contexto da sala de aula. Criar um ambiente onde o inglês é utilizado naturalmente nas interações entre adultos ajuda a normalizar seu uso e dá espaço para a prática sem o peso de um “desempenho perfeito”.
- Modelar a postura bilíngue da escola. Uma escola verdadeiramente bilíngue não pode restringir o uso do inglês às salas de aula. Se as coordenadoras, direção e equipe administrativa nunca utilizam a língua-alvo em reuniões, comunicações internas ou formações, isso enfraquece a mensagem de que o bilinguismo é uma prioridade e uma identidade da instituição.
- Preparar a equipe para interações mais ricas com as crianças. Quando professoras têm a chance de interagir em inglês fora da sala de aula, elas praticam e experimentam diferentes formas de comunicação. Isso se reflete diretamente na maneira como interagem com as crianças, tornando suas falas mais variadas, autênticas e naturais.
E Quando nem todas da equipe falam Inglês?
Em muitas escolas, parte da equipe pode não ser fluente em inglês, e a decisão de usar a língua-alvo pode gerar insegurança. No entanto, existem formas de equilibrar isso sem excluir ninguém:
- Criação de espaços específicos para interações em inglês. Se nem toda a equipe domina o inglês, organize momentos específicos onde o uso da língua-alvo seja esperado, como reuniões para discussão de currículo bilíngue ou treinamentos linguísticos internos.
- Exposição receptiva para quem não fala inglês. Mesmo aqueles que não produzem a língua podem se beneficiar de ouvi-la com frequência de forma mediada. Funcionários que trabalham em um ambiente bilíngue também devem ter oportunidades de entender o que está sendo dito, da mesma forma que crianças recém-chegadas ao bilinguismo precisam de tempo e exposição para compreender a nova língua antes de produzi-la. Afinal, bilinguismo, deve ser oferecido para TODOS!
- Apoio linguístico para quem ainda não entende. Assim como fazemos com crianças em fase inicial de aquisição da segunda língua, podemos oferecer suporte para adultos que ainda não dominam o inglês. Isso pode incluir tradução pontual, resumos em português após discussões em inglês ou o apoio de um colega bilíngue para facilitar a compreensão. É assim que nós fazemos quando temos professoras estrangeiras trabalhando na escola, não é?
Criando uma cultura escolar bilíngue de verdade
Falar inglês com a equipe não é apenas uma questão de prática linguística – é uma estratégia para fortalecer a identidade bilíngue da escola. Quando a língua-alvo está presente em interações profissionais, ela deixa de ser apenas um “instrumento didático” e passa a ser parte da cultura institucional.
Por isso, coordenadoras que querem garantir um ensino de qualidade precisam pensar além da sala de aula e criar espaços para que suas professoras utilizem e aprimorem seu inglês no cotidiano. Afinal, uma professora que pratica e expande seu próprio repertório linguístico está muito mais preparada para inspirar e ensinar suas crianças a fazerem o mesmo.
Então, que tal começar hoje? Dê o primeiro passo e experimente mudar para o inglês em suas próximas interações com a equipe. O impacto pode ser maior do que você imagina!







