Autora convidada: Bianca Piccioli
Queridas professoras de toddlers,
Hoje eu gostaria de compartilhar um pouco da minha experiência. Tenho 20 anos de profissão, com foco especial na Educação Infantil, principalmente no trabalho com crianças de 0 a 3 anos. Uma faixa etária cheia de desafios, mas também extremamente tocante para o coração.
Desde o início da minha trajetória, percebo que muitas escolas ainda não reconhecem a importância de contar com professoras experientes nas turmas mais jovens. Muitas vezes, esse trabalho é subestimado, como se não exigisse tanta intencionalidade pedagógica. Mas, quando trabalhamos com toddlers, lidamos com o início de tudo: com o primeiro contato da criança com o mundo além do lar e, ao mesmo tempo, com famílias entregando seus maiores tesouros pela primeira vez.
Se olharmos pela perspectiva do desenvolvimento neurológico, esse é um período fundamental da vida, com grande impacto no futuro. Esses primeiros anos, por vezes desvalorizados, são, na verdade, a base. Precisamos sempre lembrar – e deixar claro – o quanto esses primeiros momentos na Educação Infantil são vitais.
Dito isso, a primeira reunião de pais é uma grande oportunidade para acolher essas famílias e conquistar sua confiança. Uma vez que esse vínculo é estabelecido, o ano letivo tende a seguir com mais tranquilidade e parceria.
Uma recomendação importante para esse primeiro encontro é pensar na sua imagem profissional. No cotidiano da sala, priorizamos o conforto, e com razão. No entanto, para ocasiões como essa, vale cuidar da apresentação de forma mais intencional. Cabelo alinhado, roupas sóbrias, postura confiante. São detalhes que, mesmo parecendo superficiais, ajudam a transmitir segurança e credibilidade. Os primeiros segundos de um encontro contam muito, e a forma como nos apresentamos pode contribuir para que as famílias nos vejam com mais confiança.
Além disso, uma orientação importante: cuide da linguagem. Evite o uso excessivo de diminutivos como “pequenininho”, “fofinho” ou expressões que infantilizem o discurso. Apesar de atuarmos com crianças muito pequenas, nosso trabalho é extremamente sério, fundamentado e planejado com base em intencionalidades pedagógicas. A forma como nos comunicamos com os pais também precisa refletir essa seriedade e profissionalismo.
Outra sugestão prática: tenha sempre uma garrafinha de água por perto. Em situações de nervosismo ou diante de uma pergunta mais desafiadora, fazer uma pequena pausa para beber água pode ser valioso. Esse gesto simples te dá alguns segundos para respirar, reorganizar os pensamentos e responder com tranquilidade, evitando reações impulsivas e mantendo o tom calmo da conversa.
Chegando ao ponto mais aguardado (e sensível) da reunião: a adaptação. Essa é uma conversa que pede escuta, empatia e presença genuína. Evite slides carregados de texto; olhe nos olhos das famílias. Traga o coração para essa fala. Explique que a adaptação não envolve apenas as crianças. Os pais também estão vivendo uma mudança, e são peças fundamentais nesse processo.
Costumo dizer: “Pais, precisamos lembrar que a adaptação é um momento totalmente novo para o seu filho. Ele estará entrando em um ambiente diferente, conhecendo pessoas novas e, ao contrário de nós, que já vivemos diversas experiências e aprendemos a nos adaptar, ele ainda está construindo esse repertório.” E reforço: a chave para uma adaptação saudável é a confiança que os pais depositam na escola e, principalmente, na escolha que fizeram. Cabe a eles transmitirem essa segurança aos filhos com gestos, palavras e atitudes.
Depois de um momento mais técnico como esse, costumo suavizar o clima com um toque de leveza para criar empatia. Digo algo como: “A primeira coisa que vocês vão fazer, a partir de hoje, é contar para o filho de vocês o quanto essa escola é legal, como ele vai adorar estar aqui e como a professora é incrível! Que vocês confiam nela e sabem que viverão ótimos momentos juntos.” Embora bem-humorada, essa fala carrega a mensagem central: o modo como os pais se posicionam diante da escola impacta diretamente a forma como a criança vai se sentir nesse novo ambiente.
Também é importante prepará-los emocionalmente: às vezes, o processo é mais difícil para os adultos do que para os pequenos. Muitos pais se questionam ao ver o filho chorar: “Por que estou fazendo isso com ele? Eu deveria protegê-lo…” Nessas horas, precisamos oferecer outro olhar. O choro pode ser, sim, um sinal de sofrimento momentâneo, mas ele também é uma abertura. Uma oportunidade real para a criação de vínculo. Quando a criança chora e se sente vulnerável, é justamente nesse instante que o professor pode acolher, oferecer carinho e começar a construir um laço de confiança e afeto.
Costumo orientar: se estiver difícil para você, pai ou mãe, respire. Dê uma volta, mande uma mensagem, leia algumas páginas de um livro. Faça o que for preciso para se acalmar, mas confie no processo. A adaptação acontece quando há entrega, constância e presença, mesmo (ou especialmente) nos momentos mais desafiadores.
É por isso que faço questão de trazer essas orientações às reuniões. A adaptação é mesmo uma fase delicada. É esperado que haja inseguranças, tanto por parte das famílias quanto das crianças. E nem sempre tudo acontecerá de forma linear ou tranquila. Há crianças que se adaptam rapidamente nos primeiros dias, mas, após algum tempo, quando a novidade passa, podem apresentar resistência. Essas oscilações são comuns e fazem parte do processo. Precisam ser acolhidas com paciência, sensibilidade e, acima de tudo, confiança mútua entre escola e família.
Passada a fase de adaptação, o trabalho de vínculo com as famílias continua, e talvez até se aprofunde. Manter uma escuta atenta e um canal de diálogo claro é essencial, mas isso não significa dizer “sim” para tudo. Muitas vezes, a confiança se constrói, justamente, quando mostramos consistência entre o que falamos e o que fazemos. Estabelecer limites com clareza, sustentar combinados e manter a palavra são atitudes que demonstram profissionalismo e geram segurança. Por mais que pareçam inofensivas, pequenas exceções feitas repetidamente podem enfraquecer o percurso coletivo e, no futuro, tornar nossa rotina mais desgastante. E quando surgirem situações delicadas, respire! Nem toda resposta precisa ser imediata. Às vezes, uma pausa é o que nos permite responder com respeito, firmeza e equilíbrio. Ingredientes essenciais para uma relação saudável com as famílias.
Trabalhar com toddlers exige muito de nós: escuta ativa, sensibilidade, presença constante com as crianças e com seus responsáveis. Quando demonstramos preparo, cuidado e coerência entre o que falamos e o que fazemos, conquistamos a confiança das famílias e construímos uma base sólida para o desenvolvimento integral de cada criança.
Espero que essas orientações tragam segurança para o início do ano letivo. E agora, deixo uma mensagem especialmente para você, professora: confie em você! No seu olhar, na sua escuta, no seu preparo, na sua entrega. Quando nos posicionamos com verdade e intenção, tudo começa a dar certo.
Desejo um ano inspirador, cheio de vínculos fortes e descobertas significativas!

Bianca Piccioli é educadora bilíngue com cerca de 20 anos de experiência na Educação Infantil. Especialista em neurociência da aprendizagem, bilinguismo e psicopedagogia, já participou de formações internacionais, incluindo o Reggio Children, na Itália. Premiada por sua atuação inovadora, dedica-se à formação de professores e ao trabalho com os anos iniciais, com foco em vínculos entre escola e família, escuta ativa e práticas que respeitam a infância em sua essência.





